Food for Thought

Os falsos moralistas?

18 de February de 2010 por Salvador da Cunha

Imagem-branca-de-duas-pessoas-com-rostos-grandes-se-encarando-Antes de mais quero dizer que sou um fervoroso defensor da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa, mas não como os únicos valores fundamentais da democracia. Em casos normais, estou do lado dos jornalistas, mas hoje indigno-me com o circo montado na Assembleia da Republica.

Não compreendo as posições de José Manuel Fernandes e de Mário Crespo. Parecem-me mais queixinhas de virgens ofendidas ou falsos moralistas, do que propriamente coisas a que o país deva dar relevo. A liberdade de imprensa é um «vaca sagrada» da democracia. Mas há outras liberdades que não podem ser postas em causa, como por exemplo a liberdade que todos temos de não querer falar com um jornalista X ou o jornal Y. Essa liberdade também é sagrada, desculpem lá qualquer coisinha.

Já agora a liberdade de exercer influência sobre a comunicação social, desde que de forma legítima, é também uma liberdade fundamental. Como será a liberdade de, com determinação, não permitir que um jornalista insista numa versão de uma história que possa colocar em causa a reputação de pessoas ou empresas, quando esse jornalista só olha para um lado dessa história.

O que Mário Crespo se queixa é de ter ficado sem casa, quando o Jornal de Noticias lhe recusou a publicação de um texto de opinião. Acho que o Mário crespo tem todo o direito à indignação, mas a encenação que fez nos últimos dias a propósito desse facto não foi apenas exagerada, foi ridícula. E ele sabe disso, mas insiste na história.

Nesta fase, eu poderia dizer que o Mário Crespo está a ser instrumentalizado, ao serviço de outros desígnios, quiçá mais obscuros. A liberdade de expressão permite-me fazer uma afirmação como essa e, se o próprio achar por bem, pode mandar uma versão para os comentários deste blog. Eu publico na integra. Mas não acho bem que assim seja, porque nesta profissão não se pode «disparar a bala e perguntar depois quem lá vem».

Já José Manuel Fernandes, que muito prezo e com quem tive o prazer de trabalhar há cerca de 20 anos na fundação do Público, tem vários «mas» no seu discurso. Parece-me mais um jornalista amargurado com o que lhe aconteceu, do que com a razão do seu lado.

Desde logo porque ele sabe bem que o jornalista não tem direito a tudo… tem direito a fazer perguntas, mas não de exigir respostas. Tem direito de querer estar, mas de compreender se não for convidado. O Público foi, e bem, um jornal incómodo para o Governo. Foi uma forma de estar. Não pode esperar ter um Governo colaborante. E isso não tem nada a ver com pressões ilegítimas. Mas agora, que o clima é propício, ataca-se na carne fresca. Não acho bem. Que eu saiba o José Manuel Fernandes nunca deixou de publicar uma história sobre o Governo, nem o lápis azul entrou no Publico para censurar este ou aquele texto. Há pressões? “Welcome to the real world a deal with them…”

Por último acho mal, vindo o José Manuel Fernandes, o ataque à Ongoing. Por várias razões, mas a principal tem a ver com falta de legitimidade: como é que um ex-director de um jornal que em 20 anos nunca deu um tostão de resultados positivos se atreve a qualificar como exagerado o investimento de uma empresa concorrente? É absurdo, tendo em conta a boa performance do Diário Económico e dos projectos paralelos que a marca está a desenvolver.

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3 respostas até ao momento;

  • 1 Daniela Carreira // Feb 18, 2010 at 12:02 pm

    Concordo, na íntegra, com este texto! Assino por baixo. Fantástico :)

  • 2 Anonymous // Feb 21, 2010 at 5:37 pm

    Pois, só que a Sonae tem sustento próprio.

  • 3 Salvador da Cunha // Feb 21, 2010 at 9:38 pm

    Mas o facto da Sonae ter fundos próprios não justifica os prejuízos do Público. O jornalismo livre e responsável é o jornalismo sem condicionalismos.

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