Andam por aí uns jornalistas emprateleirados, daqueles que fingem que trabalham e outros que de facto não trabalham há alguns anos – que, por isso, não fazem a mínima ideia do que fazem as chamadas «agências de comunicação» – a dizer uns disparates sobre a hiper-influência que alegadamente as agências têm sobre a agenda mediática, sobre os alegados interesses obscuros, tráfico de informação e outras coisas aberrantes que tal.
Isto vai pegando, porque se generalizam as situações e se confunde fontes de informação genéricas com as agências/consultoras de comunicação. Aumenta a confusão quando se publicam estatísticas muito pouco credíveis sobre a real influência das consultoras de comunicação e se cria uma percepção de que os jornalistas já não mandam nada no sistema mediático. Nada mais falso.
As consultoras de comunicação são hoje um dos elos mais transparentes do sistema mediático. Os clientes sabem porque é que as contratam (influência, conhecimento do sistema, etc), os jornalistas sabem porque é que são contratadas, quem representam e ao que vêm (quais os seus reais interesses). Mais, sabem como podem «servir-se» delas para aligeirar e facilitar o seu trabalho (informação mais enquadrada, boas ideias editoriais, acesso às fontes) e até que ponto são permeáveis aos seus argumentos.
Os jornalistas têm na mão a faca, as consultoras e o queijo. Umas já não vivem sem as outras. Mas para que a informação chegue de forma perceptível aos leitores do jornal, a faca é sempre necessária e o queijo muda de mãos, pelo que em última análise quem tem a informação pode fazer com ela o que desejar. São os jornalistas que decidem o que publicam, o que deixam de fora, o que lhes incomoda comercialmente, o que lhes interessa estrategicamente. A equação que diz que a informação publicada deve ser igual ao interesse dos leitores nunca existiu, é falsa. Mas a decisão está e estará nas mãos dos jornais e dos jornalistas. Dizer outra coisa, é diminuir a relevância desta classe profissional.
Como onde há fumo há fogo, vamos clarificar alguns maus exemplos que podem estar a servir aos tais imbecis emprateleirados para generalizar as suas ideias:
- Por exemplo, a vergonha que existe na relação entre as fontes judiciais e os jornalistas criminais, hiper-dependentes, ou mesmo reféns, dessas fontes. É um problema nacional que deverá ser endereçado o mais depressa possível. O problema não está nos jornais, está a montante, nas fontes judiciais.
- Da mesma forma, mas não tão explícita, é a vergonhosa relação de algumas entidades reguladoras com os jornalistas que seguem os seus assuntos, nomeadamente a CMVM, o Banco de Portugal. Quem trabalha perto, sente que as regras não são iguais e que estas entidades abusam de subterfúgios para fazer passar as suas mensagens, muitas vezes pseudo moralistas.
- Temos ainda o eterno exemplo da Madeira de Alberto João Jardim, onde correm rumores constantes de jornalistas amordaçados e reféns do Governo regional. Já foi pior, segundo me dizem.
- Há sectores da economia, como o sector automóvel, onde a dependência dos jornalistas é total e onde poucas agências têm acesso. Os jornalistas são simplesmente comprados com carros à disposição em troca de notícias favoráveis. A notícia vem 5 milímetros desviada dos objectivos, o jornalista fica sem carro. Directores, editores fecham os olhos porque há investimentos significativos em publicidade atrás destes acontecimentos. Esta dependência deveria ser investigada pela ERC.
Já aqui disse um par de vezes que as consultoras de comunicação não têm poder, per si. Têm «know how», «know who», «know when» e «know where» e carregam o poder do interesse mediático de quem representam. Este poder é a tal influência que tanto se reclama no sector. Posso estar a ver tudo mal, mas a influência per si não existe. Constrói-se, acumula-se, dá trabalho a manter, e perde-se. O ponto é saber qual o pilar que a sustenta.



3 respostas até ao momento;
1 jpmeneses // Nov 25, 2009 at 1:19 pm
Caro Salvador
Bom texto, sem dúvida (porque não hesita em recolocar a questão no ponto: por muito que às vezes não pareça, às relações públicas interessa jornalistas/mediadores credíveis e jornalismo credível).
Mas não é tudo como o Salvador diz. Quando escreve que «os jornalistas sabem porque é que são contratadas, quem representam e ao que vêm (quais os seus reais interesses)», sinceramente não me revejo. Todos os dias sou contactado por agências de comunicação e em cerca de metade dos casos – sobretudo quando o tema é saúde – não sei nem é perceptível quem é que lhes paga (elas podem, por exemplo, representar uma associação de doentes, mas é outra a entidade que lhes paga). Já fui, devo dizer, algumas vezes ‘enganado’, certamente por distracção minha.
um abraço
2 Salvador da Cunha // Nov 25, 2009 at 2:00 pm
As excepções que confirmam a regra.
Nesses casos, meu caro, recomendo que não trabalhe com agências sem saber quem verdadeiramente reprersentam.
Às vezes uma simples pergunta resolve o tema.
Abraço,
SC
3 jpmeneses // Nov 27, 2009 at 1:23 pm
Concordo.
um abraço e obrigado
Deixe um comentário