Food for Thought

O ingénuo Dr. Pacheco Pereira

19 de September de 2009 por Salvador da Cunha

Antigamente o jornalismo tinha as suas fontes bem protegidas pelo segredo profissional (divulgar uma fonte é a maior transgressão da classe) para saber informação que ninguém sabia. Davam-se caixas e os jornais viviam da diferença. Os jornalistas eram mais ou menos bem pagos, tinham tempo para investigar, sabiam distinguir a banha da cobra do óleo de osga, e publicavam o que queriam. Havia jornalismo de investigação, cuja única preocupação (pelo menos do jornalista) era informar os seus leitores do que ele achava que lhe interessava.

Mas do outro lado dos jornalistas estavam as fontes, que na opinião do Dr. Pacheco Pereira, não deveriam ter interesses nenhuns, que não fossem o interesse patriótico e altruísta de informar a comunicação social. Como homem culto que é, não sei em que mundo é que viveu estes anos todos. Acredita mesmo nisso? Acredita que antes das fontes profissionais não havia interesses por trás de cada informação?

Pacheco Pereira está muito escandalizado porque há dias foi divulgado num estudo, que faz uma tese de mestrado, que 60% das notícias políticas dos 4 principais diários tem origem em assessores de imprensa ou fontes organizadas de informação.

Bem-vindo ao Sec. XXI, Dr. Pereira, porque isto é assim em todo o mundo civilizado. O Dr. deverá ser o único moicano que não quer, nem por nada, eleger uma primeira-ministra com aconselhamento profissional nas áreas da comunicação. Pois deixe-me que o elucide sobre certas realidades:  

1. Se o PSD ganhar estas eleições, como fez nas europeias, não será por mérito da Dr. Ferreira Leite nem da sua estratégia (sim a sua, Dr. Pereira) suicida e despreparada. Mas sim por demérito do actual partido do Governo.

2. O PSD de Ferreira Leite pode ganhar as eleições (pouco provável), mas ficará a anos-luz do PSD de Durão Barroso, por exemplo, o que para mim é uma derrota clamorosa dada a reputação do actual primeiro-ministro.

Dr. Pacheco Pereira, a maior parte dos jornalistas já não está preparada para viver sem os assessores. Não teriam tempo, espaço ou matéria para fazer as 15 peças de 1000 caracteres por dia a que estão obrigados pelas dificuldades financeiras que atravessam todos os meios de comunicação social. Antes, há 30 anos, fazia-se uma peça de 15.000 por semana, que ainda demorava uma horas a ver vista e revista por um desk.

Antes haviam bons e muito bons jornalistas, hoje há menos, são quase todos editores ou directores. Depois há os miúdos. Muitos miúdos. Miúdos que não sabem nada. Nem fazer perguntas. Miúdos despreparados, sem orientação, sem tutores. Miúdos de rédea solta, que vezes de mais carregam o Rei na Barriga e causam estragos muitas vezes irreparáveis na reputação de pessoas e empresas… Miúdos que emprenham pelos ouvidos de quem lhe paga o jantar. Que escrevem e publicam o que querem, sem escrutínio de pelo menos um editor com dois palmos de testa. 

Quem protege a sociedade desses miúdos? Não acha que os investimentos que as empresas fazem na construção das suas marcas, e que por sinal são o sustento da comunicação social, merece ser protegidos contra o mau jornalismo? Ora ai está outro do papel das fontes organizadas: esclarecer, enquadrar, desmentir, orientar, ajudar e, claro, influenciar.

Penso que quem está na vida política com a intensidade do Dr. Pacheco Pereira, deveria saber que há 30 anos que o jornalismo e os interesses vivem de mãos dadas. Podem ser interesses legítimos ou ilegítimos, mas são sempre interesses. Para além dos desastres da natureza, dos incidentes extraordinários, das agendas pré-programadas (por exemplo os incêndios no Verão, ou as filas de transito no inicio e fim das férias) e de uma mão pouco cheia de assuntos diversos, todas as outras notícias carregam interesses.

Diz também o estudo que poucos são os artigos que identificam as fontes organizadas e os assessores de imprensa. Pois claro que sim… qual é o interesse para o leitor em saber que a Agência W trabalha com a empresa X ou que o assessor Z trabalha com o Político Y? Desde que o jornalista confie na sua fonte, a credibilidade da notícia está assegurada.

Era assim antes, é assim agora.

Quando Pacheco Pereira e outros jornalistas da velha guarda criticam o sistema mediático actual e o peso das consultoras de comunicação (eles ainda teimam em dizer agências), não pensam bem no que dizem, porque no fundo estão a criticar o juízo de avaliação dos próprios jornalistas, que no fim do dia são quem decide o que publica, com que espaço e com que destaque.

Mas os assessores e as agências influenciam? Claro que sim, mas dentro de limites razoáveis e quase sempre para proteger os seus patrões/clientes de informação condicionada que pode prejudicar a reputação das empresas/pessoas para quem trabalham.

Mas também dão informação parcial e incompleta, para induzir os jornalistas a escrever positivamente sobre os seus interesses? Claro que sim, mas cabe ao jornalista saber os interesses em jogo e avaliar isso na equação de procura pela verdade. Reconfirmar com outras fontes, cruzar informação e decidir o que publica.

Não está à espera que o Luís Bernardo divulgue, por exemplo, que o primeiro-ministro costuma lançar umas bufas mal cheirosas durante as corridas de propaganda, pois não? Bem me parecia. (isto é apenas um exemplo ilustrativo, não quer dizer sequer que possa ser verdade)

Dr. Pacheco Pereira, antes as notícias tinham interesses, mas eram divulgados por bufo, cujos proveitos não eram nunca claros.

Hoje as noticias têm interesses, mas são divulgados por profissionais, de forma profissional. Podem muitas vezes atrapalhar o trabalho do jornalista, mas na maior parte dos casos ajuda na construção da notícia. E os interesses para o jornalista estão claros à partida, porque se sabe quem é que representa quem. O sistema hoje é muito mais transparente. Pode é ser menos interessante.

Depois, Dr. Pacheco Pereira, há os maus assessores e as más consultoras de comunicação. É como em todas as profissões. Não se pode é tomar a ovelha negra pelo rebanho.

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1 resposta até ao momento;

  • 1 Filipe Pacheco // Sep 19, 2009 at 7:33 pm

    “A comunicação e o esoterismo são, portanto, mais afins que o que à primeira vista parece. Pode-se, portanto, afimar que também na comunicação há um segredo, e este segredo consiste a invisibilidade por excesso de exposição”, Mário Perniola

    Abraço, Salvador.

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