Food for Thought

Mudanças de personalidade

19 de June de 2009 por Salvador da Cunha

Quando acedemos a prestar uma declaração a um jornal para ser incluída num inquérito ou numa pool de analistas, é certo sabido que do nosso depoimento será seleccionada a frase mais polémica, mais “picante”,  e raramente aquela que melhor expresse a nossa opinião. É neste contexto que sai a minha opinião de hoje no Jornal de Negócios, inserida num texto da pág. 29. Digo aí que não acredito que os portugueses fiquem convencidos com uma eventual mudança de personalidade do Primeiro-Ministro. «É uma ilusão total. Esta questão da humildade é imposta pelos «spin doctors» e as pessoas não vão acreditar nisso, porque parece que é uma atitude construída para as eleições», cita o texto do Jornal de Negócios.

É importante enquadrar esta minha opinião: Eu penso que pessoas com personalidades muito fortes não mudam de um dia para outro. É o caso do Primeiro-Ministro: os traços principais da sua reputação, que formam a personalidade que lhe é reconhecida pelo público, são a Determinação, a Ousadia, a Coragem, a Firmeza, o Pragmatismo e a Obstinação. Não é a humildade. Por isso, quando se tenta moldar a personalidade aos desígnios dos “Spin Doctors” sai um «fake» ou uma personalidade falsa. Ora as pessoas não gostam de «fakes».

Sócrates não será assim reconhecido nem pelos que apreciam a sua actual reputação, nem por aqueles que valorizariam os traços da sua “nova” personalidade, se acreditassem que ali estava mesmo uma pessoa diferente. Lembro-me de Paulo Portas em 2005 aquando da morte da irmã Lúcia: poucos foram os seus eleitores que de facto acreditaram na encenação de «profunda e irremediável tristeza» que o terá abalado com a morte de Santa de 98 anos e obrigado a suspender a campanha durante dois dias, numa decisão conjunta com Santana Lopes. Para mim essa encenação foi fatal. Eu era nessa altura seu consultor. E a cinco dias das eleições, depois de seis semanas a rodar pelo país, o meu conselho já não foi tido em conta.

E Sócrates não consegue ser actor, não está formatado para «identificar» erros de percurso. Não sabe fazer isso e isso não assenta bem na sua personalidade. Ao  refugiar-se nas verbas para a Cultura (muito pouco valorizadas em tempos de crise) e na admissão de que o processo de avaliação dos professores era demasiado ambicioso e burocrático, mais não fez do que «debitar» situações acordadas com os seus consultores, mas sem verdadeiramente sentir e acreditar no que estava a dizer.

Dito isto, penso que as eleições europeias foram em Portugal o que foram no resto da Europa: uma forma de avaliar os governos locais e não de valorizar o que de verdade se passa em Bruxelas. Dito de outra forma: não penso que tenha sido o PSD a ganhar as eleições, mas sim o PS a perder. Todos os partidos com assento parlamentar subiram as suas percentagens, por isso todos ganharam? Não, foi o PS que perdeu.

Nesta linha de pensamento, se o PSD não ganhou, não há garantias quanto às legislativas. Apesar de estar longe dos pensamentos políticos e das atitudes do actual primeiro-ministro, penso que se ele mantiver a sua personalidade forte e determinada irá voltar a ganhar com algum fôlego. Talvez não seja a maioria absoluta, mas de uma coisa estou convencido: os portugueses preferem um Sócrates determinado do que uma Ferreira Leite que não «ata nem desata»

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2 respostas até ao momento;

  • 1 Cecilia // Jun 20, 2009 at 12:25 pm

    Meu caro amigo, tenho pena que sintas necessidade de justificar a tua frase. Com ou sem enquadramento podes confiar que é um facto os portugueses não ficarem convencidos com mudanças de atitude. Ninguém passa da arrogância à humildade, ponto. Felizmente há mais gente a perceber de marketing político e mesmo quem não percebe vê que até a escolha do canal não foi um crédito perdido por mãos alheias. Afinal, se fosse a RTP a emitir, os portugueses poderiam ficar ofendidos. É que aí já estaríamos perante um demasiado óbvio atestado de estupidez; e o Sr primeiro-ministro não quererá ir por aí, sob pena de se revelar derradeiramente.

  • 2 A Voz do Povo // Jun 22, 2009 at 11:38 am

    O seu post foi interessante de ler, até ao último parágrafo.
    Aí estragou tudo.
    “de uma coisa estou convencido: os portugueses preferem um Sócrates determinado”

    Correcção: os portugueses *já* não preferem um Sócrates.
    Ponto.

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