A pequena noticia que Marcelo Rebelo de Sousa dá no Sol, na semana passada, sobre a aquisição do Santini, em Cascais, é o que eu há anos venho chamando de Marciavélica. Sim, porque Marcelo e Maquiavel deviam ter feitios semelhantes. A pequena vingança pensada entre a insónia das três às quatro da manhã. O termo foi inventado aquando da saída intempestiva da TVI, com acusações absurdas a Miguel Pais do Amaral (Então presidente da Media Capital e por acaso é também seu cunhado) de intromissão nos assuntos editoriais da TVI e na sua própria liberdade de expressão. O tempo encarregou-se de demonstrar que na altura Marcelo tinha uma agenda muito própria: tirar Santana Lopes do Governo e lançar Cavaco à presidência. Não saiu bem nessa fotografia. Nem sequer é muito fotogénico.
Também no caso do Santini, o tiro saiu-lhe pela culatra: ao pensar que «matava» a notícia (jargão usado para dizer que uma noticia já publicada deixa de ter interesse jornalistico), o que Marcelo fez foi despertar a curiosidade para os detalhes e, curiosamente, para o facto de ele e um grupo de notáveis de Cascais terem perdido alguns meses a negociar a mesma coisa. Marcelo queria, como sempre, deixar um pouco do seu veneno nesta história. Uma vingança por ter sido preterido. Quem lê o DN de segunda-feira percebe a frustração do grupo de Marcelo. Provavelmente o próprio sabe muito bem que se não tem publicado a notícia, nunca ninguém saberia que ele fora preterido. Mas a lógica de Marcelo é como a do escorpião da fábula: ferra o espigão de veneno na tartaruga que o ajuda a passar o Rio, porque, simplesmente, está-lhe no sangue.


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