Food for Thought

Os preços das coisas…

28 de March de 2009 por Salvador da Cunha

Há uns seis meses atrás, falava com um amigo sobre os preços das coisas. De como é fácil a um cidadão europeu ter o que quer, sem ter de verdadeiramente valorizar o produto que compra. Casas, carros, barcos, viagens: Podem ser comprados a crédito? Venham eles… As taxas de juro subiram? Não há problemas, alargam-se os prazos.

Nesta conversa cheguei à conclusão que, em termos genéricos, o preço do carro de uma determinada pessoa anda normalmente pelos 15% do preço da sua casa, chegando muitas vezes aos 20%. Se A comprou uma casa que lhe custou 250 mil euros, terá um carro na ordem dos 37.500 euros. Se a casa custou 500 mil euros, terá um carro de 75 mil euros, e por ai fora.

O carro hoje em dia tem uma vida útil máxima de 10 anos, sendo que nesse período se pagam pelo menos mais 30% do valor da aquisição em revisões e desgaste. A casa terá muito menos investimento proporcional ao longo da sua vida útil. Os impostos, sobre tudo o que está relacionado com os carros (aquisição, selos, seguros, combustíveis) são pornográficos. Nas empresas, para além do mais, todos os custos relacionados são ainda agravados com uma taxa específica de 5%. Por cima de tudo isto, Portugal está no Top 5 dos países europeus com impostos mais elevados.

Postas as coisas desta forma, chegamos à conclusão de que o preço dos carros é absolutamente absurdo em relação ao preço das casas… principalmente tendo em conta que os carros perdem 50% do seu valor à saída do stand e as casas, apesar de tudo, ou não perdem tanto ou ainda valorizam no médio prazo.

No meio desta conversa falamos da necessidade que as empresas de automóveis teriam de inovar, não só nas características dos automóveis, mas sobretudo no preço. É essencial que o processo produtivo seja amplamente melhorado para que os carros passem a ser muito mais baratos. Chegamos também à conclusão de que na Europa, Estados Unidos ou Japão dificilmente sairiam carros baratos. Os modelos de gestão estão demasiado enraizados para que seja possível fazer mudanças de grande monta em pouco tempo.

Vaticinei na altura que o carro do futuro, barato e eficaz, viria da Índia e seria produzido pela Tata Motors. Estive na Índia há três anos e vi que a Tata andava por lá a fazer. Até falei do preço ideal (5.000 euros). Não imaginava que seria surpreendido no início de Março com esta notícia do nano. De facto é notável e irá fazer «rombos» em várias marcas. Isto é inovação pura e dura, ao velho estilo do carro do povo (Volkswagen)

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3 respostas até ao momento;

  • 1 cjt // Mar 28, 2009 at 4:07 pm

    de facto, o fabrico de automóveis baratos e com uma qualidade elevada é possível, assim como é possível a sua produção em série, mesmo nos casos de veículos híbridos e não poluentes, como os eléctricos e os de pilha de combustível a hidrogénio (embora saibamos que uns e outros não são inteiramente “verdes”).
    o problema está, claro, no lobby do petróleo e nos custos de investigação.

    quanto ao carro da tata, é bem vindo. no entanto, há que considerar diversos aspectos: as legislações em vigor no resto do mundo, especialmente na europa, e a percepção do público.
    quanto à legislação, esta estabelece que uma viatura deve ser homologada se cumprir os critérios “state of the art”, isto é, se touxer incluidos sistemas antipoluentes (no caso a norma euro IV, mínimo – creio) e sistemas de segurança activa e passiva, a par das restantes normas de fabrico que me parecem ditar qualquer coisa em relação a materiais recicláveis e reciclados. este carro da tata, sabemos, não cumpre muitas delas, pelo que será necessária uma adaptação a estas legislações, com custos. resta saber, assim, por quanto será vendido este modelo na europa e quanto se irá pagar de impostos em portugal.
    por outro lado, a percepção – no sentido de cumprimento das necessidades de reconhecimento social do público -, percepção essa que será a de um “veículo pobre”. sabemos que os carros funcionam como o “prolongamento do pénis”, mesmo para quem o não tem, no caso, as mulheres. a ver vamos qual será a aceitação deste modelo.
    seria bom que este carro viesse para a europa, a fazer consumos mínimos e poluição mínima. talvez se conseguisse algo em relação ao ambiente e às finanças disponíveis nas famílias.
    mas estou céptico.

  • 2 TNCB // Apr 7, 2009 at 1:59 pm

    O conhecimento torna-nos sábios, pelo que os acontecimentos deixam de ser inesperados para os que estão atentos …

    O preço das coisas vai descer necessariamente, mesmo que algumas continuem lá em cima.

    A Logan também está aí … será coincidência?

  • 3 Carlos Leandro // Dec 16, 2011 at 1:35 pm

    Muito interessante e lógico, o raciocínio.
    Realmente, é muito dificil estabelecermos o preço das coisas num mundo tão cheio de amarras e corporativismo.

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