Food for Thought

Cortes na democracia

30 de December de 2008 por Salvador da Cunha

Comecei há dias a escrever um post sobre a sustentabilidade da imprensa. Sobre a absoluta necessidade de haver um grupo de empresas que, a bem da democracia, garanta a sustentabilidade da imprensa como meio de comunicação social, baseado na sua credibilidade e não apenas na lógica dos GRP’s. A coisa não me saiu bem e acabei por não publicar. Mas depois de ler esta notícia do Público resolvi voltar ao tema.

Sou da opinião que a imprensa é (ou devia ser) o órgão de comunicação social mais credível de todo o sistema mediático. É sobretudo a imprensa que faz (ou devia fazer) a agenda mediática e que influencia a Rádio e a Televisão. É também a imprensa que, efectivamente, lidera (ou devia liderar) o quarto poder. Que investiga, que escarafuncha, que desenterra e que descobre os esqueletos e que os interpreta. Ou pelo menos esse é o seu papel, dentro de um quadro de justiça e ética, sem fazer fretes nem favores a ninguém. Em Portugal não se vê a imprensa nesse papel desde a década de 90. Desde «O Independente» que, na altura, liderava um movimento de imprensa mais rebelde, hoje falida ou castrada.

Por isso a conclusão de que quanto mais fraca está a imprensa em determinado país, mais débil é a democracia desse país. E tenho pena de dizer que a nossa democracia está cada vez mais débil, na mesma media que a imprensa portuguesa está cada vez mais fraca e mais pobre.

Acho mesmo que ter uma imprensa fraca é estratégico para o actual poder político. Uma estratégia com mais de 10 anos, que me foi contada por fontes envolvidas, e que tentarei explicar num artigo de opinião a publicar em breve.

Esta notícia do Público, vista à luz desta teoria, faz todo o sentido. É mais um prego no caixão de uma indústria em muito fraca situação financeira.

Voltando à minha teoria: acho que as empresas portuguesas tinham muito a ganhar se a democracia portuguesa fosse verdadeiramente independente. E por isso penso que deveriam promover uma imprensa verdadeiramente sustentável, aumentando o investimento publicitário. Não pela lógica do retorno imediato em vendas, mas pela lógica do retorno de médio e longo prazo na sua imagem institucional e na sua reputação e na contribuição para a sustentabilidade do sistema.

Uma imprensa verdadeiramente sustentável quer dizer que gera meios para pagar a bons jornalistas, a bons editores, a bons revisores, a bons directores e, por último, mas não menos importante, aos accionistas. Accionistas de órgão de comunicação social bem remunerados pelos seus projectos jornalísticos são menos permeáveis a pressões. E hoje em dia as pressões são muito facilmente absorvidas, mesmo por quem há anos sustenta que não é pressionável, porque não o foi há três décadas, quando estava em dois papéis de poder em simultâneo.  

Com uma imprensa verdadeiramente sustentável, haveria menos compadrio, menos corrupção, menos abuso de poder. Não havia necessidade de fazer mega investimentos em auto-estradas, terceiras pontes sobre o tejo ou TGV’s que por mais que sustentem o crescimento do PIB (apenas pela via dos gastos do Estado – o G) não promovem o emprego e por isso não promovem o crescimento sustentável. A vida seria mais fácil para todos, não apenas para os amigos do Poder.

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3 respostas até ao momento;

  • 1 Miguel Albano // Dec 30, 2008 at 9:49 pm

    Salvador,

    nos EUA onde a falência de alguns dos maiores jornais está na ordem do dia, defende-se uma New World Order para a imprensa escrita.

    Essa NWO não assenta numa lógica empresarial (onde o lucro se mantêm como objectivo máximo), mas numa lógica académica, sustentada pelas grandes universidades (que nos EUA possuem uma capacidade financeira única).

    Quando colocamos na mão das empresas (através da sustentação de um meio publicitário que cada vez menos tem retorno) a sobrevivência dos meios, corremos num risco simples… colocamos a imprensa na mão de 3 ou 4 grandes grupos (que foi o que acabou por acontecer).

    Se as empresas precisam mesma da imprensa (e bem que precisam), porque não desenvolver um novo modelo de financiamente, assente não numa lógica publicitária, mas numa lógica de apadrinhamento, seja através de uma Fundação, seja através de qualquer outra lógica de utilidade pública.

    Obrigue-se as universidades nacionais a contribuir para alguns meios em troca de equipas editoriais relaccionadas com as Ciências (Humanas e da Natureza).

    E encontre-se também que esteja preparado para investir na educação das gerações mais novas que se calhar nunca folhearam um jornal na vida.

  • 2 «Porqué no se callan?» // Jan 24, 2009 at 5:13 pm

    [...] social (ver artigo no Público), que pretende mais dinâmica e independente (medida que apoio a 200%), Sócrates deverá neste momento estar mais inclinado para adoptar um de dois modelos [...]

  • 3 O turismo, os media e a comparação inevitável dos valores // Feb 17, 2009 at 12:44 am

    [...] Já aqui tinha dito que achava bem que o Estado português investisse no sector dos média numa óptica de cliente como forma de combater a crise profunda que afecta o sector. Como liberal, não acho o mesmo para outros sectores de actividade, mas os média são o garante da boa democracia. Já o afirmei antes aqui. [...]

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